Como ter uma discussão sem brigar?

Algo que vemos com muita frequência nos jornais, nas redes sociais, e nas relações familiares são conflitos. Uns mais brandos e outros mais aquecidos. E os conflitos são sempre gerados da diferença de opinião entre duas ou mais pessoas.

E eles podem ocorrer em diversas escalas, desde guerras entre nações até brigas em família ou quebras de contratos de negócios.

Eu acredito que as escolas pecam em não nos ensinar habilidades necessárias para que consigamos viver em sociedade de forma mais pacífica, e portanto, esse é um dos motivos pelos quais ainda há tanta violência verbal e física na nossa sociedade.

Eu me lembro que havia até uma tentativa de nos ensinar a pensar o convívio em sociedade com as matérias de filosofia e sociologia quando eu estava no ensino médio, mas o conteúdo ensinado infelizmente não conversava com a nossa realidade. Acredito que os professores não haviam sido bem treinados para entregar as aulas dessas matérias.

E aí, como consequência, gerações passam, e continuamos a viver em sociedade como os nossos pais, avós, e as gerações passadas: com muita falta de diálogo saudável e muita violência.

A falta de diálogo na política, na religião, e no futebol

Você já ouviu dizer que “política, religião, e futebol não se discute”? Provavelmente já. Isso se dá pelo fato de que discussões sobre esses temas geralmente terminam em brigas.

Mas por quê? Por que estes três temas têm muito a ver com gostos e crenças, e pouco espaço é dado à lógica em discussões sobre eles. E não tem como discutir temas em que há pouco espaço para a lógica e chegar a algum consenso.

Mas eu não concordo com essa frase. Eu acredito que a gente deva sim aprender a discutir todos os temas, desde os mais fáceis de se discutir até os mais difíceis, de forma pacífica. Se não chegarmos a uma conclusão em comum, pelo menos devemos aprender a concordar em discordar e respeitar a opinião do outro (desde que ela não afete negativamente a vida das outras pessoas, claro).

Como acontecem os conflitos

Em seu livro Como ganhar amigos e influenciar pessoas (1981), Dale Carnegie diz que se queremos convencer a outra pessoa de que o nosso ponto de vista está correto, temos que começar a discussão de forma amigável, sem dizer ao outro que ele está errado, pois isso ferirá o seu ego e ninguém com o ego ferido estará disposto a aceitar que o outro está correto e ele está errado. Ele provavelmente até mesmo tapará os próprios ouvidos para não ouvir os seus argumentos.

Mesmo que essa pessoa te ouça e entenda pelos argumentos que você der que ela está errada, ela jamais dará o braço a torcer, porque isso ferirá o seu ego ainda mais. Isso deve-se ao infeliz fato de que muitos vivem pela máxima de que “uma vez que se toma uma posição, mantém-se essa posição até a morte.”

Portanto, de acordo com Carnegie, devemos começar uma discussão enfatizando o fato de que ambas as pessoas têm o mesmo objetivo e que só diferem nas opiniões de como esse objetivo será alcançado, o que é um detalhe que pode ser resolvido numa boa.

Além disso, ele também  recomenda que lancemos mão de perguntas que farão com que o seu interlocutor responda “sim, sim”, ao invés de “não, não” porque, quando uma pessoa começa respondendo “sim” às suas perguntas, é muito mais fácil fazê-la seguir a sua linha de raciocínio e chegar à conclusão que você quer que ela chegue do que quando ela começa respondendo “não”.

Quando uma pessoa responde “não”, ela fará de tudo para manter a sua resposta. É uma questão de honra.

Como conduzir uma discussão

Eu me lembro de uma situação em que um pessoa me contatou porque tinha interesse em fazer o meu curso de inglês. Na nossa primeira chamada de vídeo, o possível futuro aluno me disse logo que “não queria estudar gramática e só queria praticar a conversação”, que é um posição com a qual eu não concordo.

Nessa época, eu ainda não tinha lido este livro, e portanto não tinha me dado conta da melhor forma como lidar com aquela situação.

Nós dois compartilhávamos do mesmo objetivo: que este possível futuro aluno desenvolvesse o seu inglês ao ponto de chegar à fluência de forma agradável e rápida; mas diferíamos em relação a como isso deveria ser feito.

A minha reação foi a de querer convencê-lo de que era importante estudar a gramática usando frases como “se você não estudar gramática, você conseguirá desenvolver o seu vocabulário, mas a sua produção oral e escrita estará cheia de erros” e tentar convencê-lo a acreditar em mim por eu ter mais experiência que ele nessa área.

Como era de se esperar, ele não concordou comigo simplesmente pelo fato de que eu praticamente ter lhe dito que a opinião dele estava errada (mesmo usando tom e palavras amigáveis). Ele aceitou ser meu aluno, mas não mudou de ideia quanto à melhor forma de aprender inglês, o que não legal porque ele começou a estudar sem acreditar na proposta do curso.

Em seu livro, Carnegie cita a forma como Sócrates lidava com discussões: ele fazia perguntas para as quais a outra pessoa certamente responderia com um “sim”, e assim, pergunta após pergunta, ele ia direcionando o seu interlocutor à conclusão que ele, Sócrates, queria que seu interlocutor chegasse.

Se eu tivesse me valido dessa estratégia, provavelmente aquele aluno teria entendido o meu ponto de vista, concordado com ele, e sido muito menos resistente quando eu tocava no assunto “gramática” nas aulas.

Talvez, se eu tivesse falado alguma coisa mais ou menos assim, ele teria considerado melhor a minha opinião:

Eu: “(Nome), fico muito feliz de ver que você analisou a sua experiência estudando inglês e chegou à conclusão do que mais te dá prazer nos estudos, que é a prática da conversação. Sem dúvida alguma, essa prática será o pilar mais importante que te levará a alcançar a fluência. E eu acredito que você também deseje saber se comunicar com clareza e fluidez, certo?”

Ele: “Sim”

Eu: “E eu tenho certeza de que você sabe o que faz com que as palavras se juntem de forma clara e natural. O que vai fazer com que o seu inglês soe como ” nós teremos uma reunião amanhã” e não como “nós vai ter uma reunião amanhã.”

Ele: “Sim, a gramática”

Eu: “Exatamente. E eu imagino que você você saiba que é possível estudar a gramática de formas agradáveis, dentre elas conversando, jogando jogos, e fazendo atividades interativas, não é?”

Ele: “Sim.”

Eu: “Vamos incluir a gramática no seu curso e desenvolver o seu inglês de forma correta para você não aprender errado e ter que corrigir os seus erros de aprendizagem lá na frente?”

Ele: “Vamos!”

Depois dessa conversa, ele provavelmente concordaria em fazer o curso no formato que eu estava oferecendo.

Imaginemos uma conversa sobre política com a família

O Brasil está tão polarizado hoje em dia, dividido entre esquerda e direita. As pessoas defendem os seus políticos de estimação com unhas e dentes. O foco passou de “o que seria melhor para o nosso país” para “os meus candidatos favoritos precisam ganhar”.

É possível ter uma conversa parecida sobre política, mas você precisa estar bastante informado para conseguir direcionar a conversa para o lado que você quer que ela vá.

E há a possibilidade de, mesmo assim, ela tomar a direção oposta. Neste caso, é muito possível que a opinião do outro esteja correta e a sua não. E tudo bem. O objetivo aqui é que ambos cheguem à mesma conclusão juntos, através de argumentos, de forma amigável.

Imagine que você comece assim:

Você: “Eu entendo que temos opiniões diferentes em relação a quem seria o melhor candidato para governar o nosso país, mas temos que concordar que nós dois queremos o melhor para o nosso país, certo?”

O outro: “Sim”

Você: “E o que seria melhor para o nosso país?”

O outro: “Termos segurança, trabalho, saúde, educação, liberdade, respeito, etc.”

Você: “Concordo contigo. Vamos falar sobre segurança, então. Eu acredito que há tanta insegurança no nosso país por conta da desigualdade social. O que você acha?

O outro: “Eu concordo”.

Você: “Eu acho que o fator que mais causa a desigualdade social é a falta de educação de qualidade para toda a população. O que você acha?

O outro: “Eu concordo”.

Você: “Para que esse problema seja solucionado, me parece claro que temos que achar uma forma de oferecer educação de qualidade a todos, independente da classe social. O que você acha?

O outro: “Eu concordo”.

Você: “Para que isso seja feito, é necessário investir na educação pública, porque é lá que estão as pessoas que não podem pagar pela sua educação e que provavelmente se tornarão os criminosos do futuro, certo?”

O outro: “Sim”

Você: Vamos ver qual candidato defende o investimento em escolas públicas. De acordo com o que estamos vendo nas propostas de ambos os candidatos, me parece que o candidato A se preocupa com essa pauta, enquanto que o candidato B pretende fazer cortes de investimento na educação, o que pode diminuir a dívida pública, mas não diminuirá a falta de segurança no nosso país. Então, em relação a este ponto, acredito que o candidato A saia na frente, certo?

O outro: “Sim, acredito que sim. A segurança é prioridade”

Você: “Agora, vamos analisar o segundo ponto, trabalho….”

E assim por diante, até que todos os pontos sejam discutidos e colocados na balança. Com argumentos baseados em dados, ambas as pessoas chegarão a uma conclusão em comum através de uma conversa respeitosa e amigável.

Conclusão

Me parece muito sensata a sugestão de Carnegie de aprender a interagir de forma amigável e respeitosa buscando sempre mostrar ao seu interlocutor o seu ponto de vista de forma que ele também entenda que ele faz sentido.

Fico imaginando quantos conflitos seriam evitados se todos aprendêssemos a discutir assim.

Claro que para quem está acostumado a partir para a hostilidade nas discussões levará um tempo até que se aprenda a conduzir uma discussão saudável assim. Mas com a prática, eu tenho certeza que essa habilidade será desenvolvida.

Vou ficando por aqui. Até o nosso próximo encontro!

Eliana Capiotto

 

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