
Há algumas semanas, eu fiz um post sobre o tema “O império da beleza” no meu Substack, onde escrevo artigos em inglês para estudantes do idioma, mas queria trazer este tema para ser discutido por aqui também. E resolvi dividir o tema em subtemas.
Hoje, vamos falar sobre como o “império da beleza” nos faz acreditar que o nosso cabelo precisa de conserto e como isso afeta o nosso bem-estar.
Esse é um tópico muito importante para mim porque desde a minha infância eu tive dificuldade de me sentir confortável com o meu próprio cabelo, apesar de ter um cabelo normal e saudável. E imagino que muitos de vocês também tenham passado por uma experiência semelhante.
Infância e adolescência
Eu nasci em 1991, agora tenho 34 anos, e quando eu era criança/adolescente, a moda era ter cabelo liso. Se você nascia com o cabelo liso, sorte sua! Se não, você tinha três opções:
1) alisá-lo permanentemente, ou fazer chapinha ou escova várias vezes por mês
2) viver com o cabelo preso (a minha opção mais escolhida)
3) aprender a usar o cabelo natural solto com confiança (um baita de um desafio)
Meu cabelo sempre foi assim enrolado, sem muitos cachos definidos e bem cheio. E eu me sentia inadequada por ter um cabelo assim.
Em um determinado momento, meus vizinhos na rua onde eu morei da infância até a pré-adolescência começaram a me chamar de capacete, provavelmente por perceberem a minha insegurança em relação ao meu cabelo. Ou foi o contrário. Não me lembro bem. Só me lembro que isso me marcou. Fiquei muito chateada. Achava que eles me achavam feia. Chorava. Pedia para a minha mãe fazer escova no meu cabelo. E quando eu tinha que usá-lo natural, eu o prendia.
Minha mãe também não soube me ensinar a admirar o meu cabelo. Ela tem cabelo liso ondulado, e ela não sabia como lidar com o volume do meu cabelo (que puxei da família do meu pai, segundo ela). Ela não sabia o corte que mais favoreceria o meu tipo de cabelo e, para ela, a solução também era prendê-lo ou alisá-lo.
Como esperado, eu não aprendi a amar o meu cabelo natural. A sorte é que eu sempre fui muito instruída em relação aos danos que produtos químicos causam no nosso corpo. Se não fosse por isso, acredito que eu o teria alisado com produtos químicos desde muito jovem.
E assim eu cresci. A insegurança com a aparência do meu cabelo depois se espalhou para outras partes do meu corpo. Isso me retraiu, me trouxe a timidez, o medo de ser julgada, de parecer estranha, de passar vergonha, e de não ser valorizada.
Consequências da insegurança com a minha aparência
Desde então, desenvolvi alguns sintomas que acredito serem de ansiedade social, apesar de nunca ter ido atrás de um diagnóstico. Comecei a roer unhas e a tirar pele dos lábios, comecei a suar de forma anormal quando tinha que interagir socialmente (mesmo com amigos), e a me comparar muito com outras meninas que eu achava serem mais bonitas ou interessantes (o que me fazia me sentir mal na minha própria pele).
Conversar com crushes sobre os meus sentimentos, então! Nem pensar! Tinha sempre a certeza da rejeição. Mas, felizmente, aprendi a conviver com a sensação de falta de confiança na minha aparência e a viver uma vida razoavelmente normal rs.
Para você ver como é importante ensinar as crianças a terem confiança em si mesmas e a valorizarem a sua beleza natural desde muito cedo. Se não fizermos isso corretamente, há grandes chances de elas se tornarem adultos inseguro e sofrerem com isso.
A moda mudou
Muitos anos se passaram até que o movimento de orgulho do cabelo afro começou, e com ele a aceitação de cabelos volumosos em geral. Foi nesse período que eu aprendi a ver mais beleza no meu cabelo e a aceitá-lo mais. Mas tinha um porém. Ainda não era a aceitação do meu cabelo natural. O meu cabelo já podia ficar solto, mas os cachos tinham que estar bem modelados e o volume tinha que estar controlado para eu me sentir bem.
Se eu não tinha tempo para lavar o cabelo e modelá-lo com creme para pentear antes de sair, o jeito era prendê-lo, como sempre. E sabe, mesmo quando eu conseguia sair com ele solto, eu não me sentia bem. O volume do meu cabelo ao redor do meu rosto me dava a impressão de que ele estava muito mais volumoso do que ele realmente estava, e isso me fazia me sentir mal. Eu aguentava pouco tempo e logo o prendia.
Também não tive sorte com visitas a cabeleireiros, pois eles só sabiam fazer cortes no meu cabelo que dependessem de muitos produtos para ficarem “direitinho”. Isso quando eles não me propunham que eu alisasse o meu cabelo.
Lembro de uma vez, há muitos anos, quando fui a um cabeleireiro até meio famosinho na região onde eu morava e disse para ele que eu não queria fazer nenhum procedimento químico, mas queria melhorar a aparência do frizz no meu cabelo, principalmente na franja. Na minha percepção, ele me olhou sem paciência e até um pouco de desprezo (talvez por eu ter riscado a opção de usar “tratamentos” caros que o salão oferecia) quando disse “seu cabelo é assim, não tem o que fazer.”
Depois, com o surgimento das redes sociais, vieram as influenciadoras que nos ensinam a manter o cabelo cacheado e volumoso com uma aparência bonita, ou seja, passando muito creme, fazendo todo tipo de hidratação (e outros procedimentos cujos nomes eu nem me lembro mais rs) com diversos tipos de produtos, e usando difusor, touca de seda, e etc.
Eu cheguei a visitar algumas lojas de cosméticos para ir atrás dos produtos recomendados por cabeleireiros e influenciadoras e também era bombardeada com mais recomendações dos vendedores sobre a lista de produtos que eu tinha que adquirir para ter o cabelo dos sonhos.
Eu já estava exausta de me sentir inadequada com o meu cabelo natural e ficar na busca por um milagre que o fizesse ele se tornar um cabelo considerado socialmente como “bonito”.
Desenvolvendo um olhar mais crítico sobre a indústria da beleza
Essa exaustão bateu forte quando eu já tinha os meus 30 anos, mais experiência nas costas, e mais maturidade. Eu sabia que a indústria da beleza é altamente lucrativa porque ela explora as inseguranças das pessoas. As empresas do ramo da beleza gastam um bom dinheiro patrocinando celebridades e influenciadores para divulgarem uma imagem específica como sendo o padrão de beleza e assim fazem com que a maioria da população se sinta inadequada e necessitada das soluções que a indústria oferece.
Inclusive agentes menores da indústria da beleza como esteticistas, cabeleireiros, cirurgiões plásticos, e etc. compram essa narrativa da indústria da beleza e a propagam porque lhes convém. E até mesmo nossos familiares, amigos, e nós mesmos acabamos adotando essa narrativa como a realidade, e começamos a julgar a aparência dos outros e de nós mesmos à luz do padrão de beleza divulgado pela indústria.
Mesmo ciente de tudo isso e com toda essa exaustão por estar sempre me comparando e me achando menor, eu não conseguia mudar o olhar com o qual eu via o meu cabelo.
Sabe como eu virei a chave? Eu comecei a consumir conteúdos que promoviam a valorização da beleza natural e a crítica à indústria da beleza. Comecei a ouvir pessoas muito mais conscientes do que eu que me ajudaram a valorizar o meu cabelo e o meu corpo em geral exatamente como ele é. E essas pessoas também me ajudaram a ser muito mais crítica do império da beleza.
Neste ponto, tenho que agradecer às redes sociais. Foram elas que me permitiram ter acesso a esses conteúdos e a mudar a minha forma de pensar.
O poder da autoconfiança
Mudar as minhas crenças em relação à minha aparência me ajudou a usar o meu cabelo natural e solto com mais confiança. E a postura de confiança, minha amiga (ou amigo), é o que deixa a gente bonito. Não importa o quão adequado aos padrões de beleza um corpo seja, se quem mora dentro desse corpo não tiver uma postura de confiança nele, a beleza se esvai.
Uma vez o meu esposo disse para mim que se eu compartilho com ele opiniões negativas sobre a minha aparência, ele acaba absorvendo essas opiniões e me vendo da forma que eu me vejo. E isso é muito real. Chega de nos criticarmos! É hora de aprendermos a nos valorizar! E quando nós tomamos este passo, as pessoas à nossa volta o tomarão também.
Hoje, aprendi a valorizar o meu cabelo e a usá-lo com mais confiança e naturalidade. Descobri um corte que o valoriza como ele é. Me olho no espelho e penso “Estou linda!”. E tenho orgulho de estar carregando a bandeira da aceitação do nosso corpo natural.
Afinal de contas, somos seres orgânicos. Somos parte da natureza. Somos a junção dos DNAs de nossos antepassados. A história que o nosso corpo representa é fascinante!
E agora, estou ganhando os meus primeiros fios brancos. Na verdade, já ganhei vários rs. Eles me mostram que eu estou amadurecendo, e eu tenho orgulho deles. Não penso em escondê-los com tintura, como a indústria da beleza nos pressiona a fazer. E isso está relacionado a outro tema, que é a não aceitação do envelhecimento, mas isso será um tópico para outro artigo.
Meu conselho
Se você ainda se sente desconfortável com o seu cabelo natural, busque mais informações sobre a valorização da sua beleza natural e da aceitação das imperfeições perfeitas do nosso corpo. Busque cabeleireiros que tenham essa noção e saibam fazer um corte que valorize o seu cabelo natural. Informe-se mais sobre os objetivos da indústria da beleza e o quão prejudicial ela pode ser para a nossa saúde física, a nossa saúde mental, os nossos relacionamentos amorosos, o meio ambiente, e o nosso bolso.
Espero que o compartilhamento das minhas experiências e reflexões neste artigo tenha te ajudado nem que seja um pouquinho neste caminho de descobrimento do quão naturalmente bela (ou belo) você é, e no seu processo de desenvolver uma postura de confiança na sua própria pele.
Um abraço e até o próximo post!
Eliana Capiotto
Você já viu o artigo que eu escrevi sobre como criar um passo-a-passo para realizar os seus sonhos? Não, então venha conferi-lo clicando aqui.

Meu nome é Eliana Capiotto, sou paulistana da geração de 1991, casada, sem filhos, mãe de pets, e amante da natureza, de bons livros, do conforto de uma casa silenciosa e aconchegante, de bons passeios, e risadas soltas com a família e amigos ao redor da mesa da cozinha.
Amo o conhecimento e estou sempre em busca de aprender mais e compartilhar o que aprendo com as pessoas à minha volta. Sou professora de inglês e tenho uma escola de inglês online chamada Pothos. Atualmente, moro no Japão com meu esposo. Para saber mais sobre mim, me acompanhe no Instagram @elianacapiotto_ingles